Em política, nem toda soma fecha. No segundo turno para o governo do Espírito Santo, Ricardo Ferraço (MDB) precisava ampliar sua base numa direção delicada: atrair eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sem afastar apoiadores de centro e de direita. Lorenzo Pazolini (Republicanos) reforçava sua associação com Flávio Bolsonaro (PL). Ricardo, por sua vez, tinha de administrar uma aproximação capaz de render votos e provocar resistências.
Foi esse impasse que apareceu nos comentários do Instagram analisados pelo Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic), da Ufes, em parceria com a Fapes. Houve quem condicionasse o voto em Ricardo a uma declaração de apoio a Lula. Outros advertiam que um aceno ao PT poderia custar apoios já conquistados. No meio do caminho, apareceram combinações menos previsíveis: Lula com Pazolini e Flávio com Ricardo.
Candidato à reeleição ao governo capixaba, Ricardo ganhou 336.722 votos entre os turnos e reduziu a diferença para Pazolini de 329.236 para 95.699. Não bastou. Faltou uma declaração de apoio a Lula? Ou esse gesto teria afastado outros eleitores? Os dados não permitem responder. Mostram, porém, como a disputa presidencial esteve presente no debate sobre a eleição para o Palácio Anchieta, expondo as dificuldades de uma candidatura que buscava reunir eleitorados de diferentes camadas políticas.
Apoio a Ricardo condicionado a Lula
O monitoramento, realizado pelo projeto IA para Democracia, reuniu 401 publicações dos candidatos ao governo do Estado, entre 1º de setembro e 21 de outubro de 2026, com 520.308 curtidas e 56.779 comentários, totalizando 577.087 interações. No entanto, para investigar os alinhamentos eleitorais, foram processados 19.690 comentários distintos, vinculados a 165 publicações. As duas bases apresentam coberturas parcialmente diferentes.
No primeiro turno, Pazolini recebeu 1.048.633 votos (49,65%), seguido por Ricardo, com 719.397 (34,06%), e Helder Salomão (PT), com 323.483 (15,32%). A eliminação de Helder abriu espaço para a disputa pelo apoio dos eleitores identificados com a esquerda.
Em 6 de outubro, dois dias após o primeiro turno, um participante do Instagram condicionou o apoio a Ricardo ao posicionamento sobre Lula: “No primeiro turno eu trabalhei para o Helder, posso trabalhar no segundo turno pra você, dependendo do seu apoio ao presidente Lula. Você precisa dos votos do PT”.
No dia seguinte, outro comentário questionou uma publicação recebida pelo WhatsApp que atribuía a Ricardo apoio a Flávio Bolsonaro. Apesar do apoio de Helder ao emedebista, o participante afirmou que só votaria nele caso manifestasse apoio ao presidente Lula, que conseguiu ser reeleito.
A pressão continuou. Em 10 de outubro, um comentário advertia: “Sem os votos do PT não tem chance. Mas...preferiu se declarar de direita”.
A tentativa de conquistar esse eleitorado ganhou uma estratégia defendida pelo PSB de Renato Casagrande: o “voto Lulaço”, combinação de Lula para presidente e Ricardo para governador. O presidente estadual do partido, Alberto Gavini, orientou dirigentes municipais a procurar lideranças petistas para articular o apoio às duas candidaturas.
Embora a expressão “Lulaço” não tenha aparecido literalmente nos comentários analisados, a combinação foi identificada em diferentes manifestações. Em 13 de outubro, um participante escreveu: “SOU DA DIREITA, E NÃO SOU BOLSONARISTA, VOTO NO LULA 13 E NO 15 RICARDO FERRAÇO”.
A rejeição ao bolsonarismo também apareceu como justificativa para o apoio às duas candidaturas. Em 14 de outubro, outro comentário defendia: “15 Ferraço e 13 LULA. Direita e Esquerda contra o Bolsonarismo”.
Mas a aproximação com o PT não era unanimidade. Em 5 de outubro, um participante alertou: “Delicada a situação do Ferraço. Não é petista e não gosta do Lula. A maioria dos seus eleitores também não”.
As manifestações revelam os dois lados da questão: conquistar parte dos eleitores de Helder poderia ampliar a base de Ricardo, mas uma aproximação explícita com o PT também despertava resistências entre seus apoiadores.

Escolhas cruzadas
Nem todos os participantes seguiram os alinhamentos estabelecidos entre as candidaturas estaduais e presidenciais.
Em 9 de outubro, um comentário declarou apoio a Lula para presidente e Pazolini para governador, justificando a escolha pela avaliação dos candidatos, independentemente dos partidos.
Na direção contrária, em 11 de outubro, outro participante escreveu: “Eu e minha Família somos Flávio Bolsonaro Presidente e Ricardo Ferraço Governador”.
Houve ainda quem afirmasse ter desistido de votar em Pazolini por causa de sua associação com Flávio Bolsonaro, conforme manifestação publicada em 5 de setembro.
Essas escolhas cruzadas foram minoritárias, mas mostram que os alinhamentos partidários não eram automaticamente reproduzidos por todos os participantes.
Dos 19.690 comentários processados, 822 apresentaram pelo menos uma associação entre candidatos das disputas estadual e presidencial, correspondendo a 4,2% da base. Como seis mensagens mencionaram mais de uma dupla, foram contabilizadas 828 referências.
A associação Pazolini–Flávio concentrou 548 referências (66,2%), seguida por Ricardo–Lula, com 266 (32,1%). As combinações Ricardo–Flávio e Pazolini–Lula registraram, respectivamente, nove (1,1%) e cinco ocorrências (0,6%).
Esses percentuais consideram referências conjuntas identificadas por nomes e números eleitorais, incluindo manifestações favoráveis, críticas e questionamentos. Portanto, não representam exclusivamente declarações de voto nem podem ser generalizados para o eleitorado capixaba.
Ponto de negociação e resistência
O segundo turno, realizado em 25 de outubro, confirmou a vitória de Pazolini, mas com uma diferença significativamente menor.
Ricardo passou de 719.397 para 1.056.119 votos, um crescimento de 336.722. Pazolini conquistou 103.185 votos adicionais, chegando a 1.151.818. A vantagem do candidato do Republicanos caiu de 329.236 para 95.699 votos.
Pazolini foi eleito com 52,17% dos votos válidos, contra 47,83% de Ricardo.
Na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro também venceu no Espírito Santo, com 56,37% dos votos válidos (1.294.504), enquanto Lula alcançou 43,63% (1.001.965). Em relação ao primeiro turno, o petista ampliou sua votação em 151.937 votos.
Os resultados mostram o crescimento de Ricardo e Lula entre os turnos, mas não permitem identificar como os eleitores combinaram seus votos ou quanto do avanço do emedebista veio de antigos eleitores de Helder.
Tampouco é possível afirmar que uma declaração explícita de apoio a Lula teria alterado o resultado. O que a pesquisa demonstra é que a aproximação com o PT se tornou um ponto de negociação e resistência nos comentários do Instagram durante o segundo turno.


