A repercussão do debate presidencial na Band entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ganhou destaque nas conversações no Instagram entre 18 e 19 de outubro, mostrando uma intensa especulação sobre “quem bateu, e quem levou”, reflexo de uma percepção sobre o evento a partir de um lugar de ataque às reputações, para além do confronto de propostas. O achado dessa análise sugere que a espinha dorsal do ecossistema político-eleitoral nacional, nesse recorte de repercussão em uma rede social, transitou também pela torcida por um espetáculo conflitivo, com maior atenção aos episódios de confronto do que à qualidade das respostas dos candidatos em parte dos conteúdos.
Essa dinâmica é importante porque mostra como determinados atores, nesse contexto, assumiram o embate como um produto para “cortes” — trechos do debate editados em vídeos curtos para circulação nas redes sociais, como os Reels do Instagram — e narrativas de vitória ou derrota para engajar nichos específicos, embora propostas e políticas públicas também tenham aparecido nas discussões.
A análise do ecossistema político-eleitoral nacional no Instagram, entre 18 e 19 de outubro, reuniu 69.007 publicações de 22.062 perfis, que somaram 233.189.717 curtidas e 29.641.037 comentários, totalizando 262.830.754 interações, além de 2.874.800.067 visualizações. A partir de termos relacionados à eleição presidencial e à repercussão do debate, os dados foram processados em um grafo de atores, permitindo identificar os perfis de maior destaque, suas conexões e a formação de grupos que participaram das discussões na plataforma.
A dinâmica de argumentação em torno do debate promoveu uma conversa sustentada em três eixos centrais de abordagem: provocação e deslize; declaração de vitória e decretação de derrota; e desafios morais e jurídicos.
Provocação e deslize
No foco em provocação e apontamento de deslizes, parte das postagens não analisa as respostas dos candidatos, mas destaca momentos de tensão, como desentendimentos que interromperam o programa, trocas de ofensas ou reações de bastidores, como o fato de uma figura política ter levado "bronca da produção".
O deputado federal eleito Marcelo Freixo (@marcelofreixo) repercutiu essa dinâmica criticando o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, em uma postagem que mobilizou 112.824 interações, sendo 90.406 curtidas e 22.418 comentários: “Considerações do debate da Band: além da postura arrogante, desrespeitosa e debochada, Flávio Bolsonaro não respondeu nenhuma pergunta porque ele simplesmente não tem proposta. O Brasil não merece um Bolsonaro no poder. Por isso, não restam dúvidas: dia 25 é 13!”.
Derrota e vitória
Nas repercussões acerca de declaração de vitória e decretação de derrota, os perfis mais alinhados ideologicamente tratam o debate como uma dinâmica de jogo de futebol, utilizando expressões como "Lula atacou, Flávio enfrentou" ou selecionando "os melhores momentos" em que o candidato supostamente "amassou" o adversário.
Um exemplo é a postagem do perfil de Sergio Moro (@sf_moro), com 93.191 interações, sendo 90.020 curtidas e 3.171 comentários: "O vencedor do debate e próximo presidente do Brasil! Lula, agressivo e sem propostas. Flávio, tranquilo e propositivo. Dia 25 é Flávio Bolsonaro 22", escreveu o governador eleito do Paraná, filiado ao PL. Esses recortes funcionam como munição imediata para que cada bolha confirme sua própria narrativa de triunfo.

Desafios morais e jurídicos
A ressonância sobre desafios morais e jurídicos tratou de recortes que apelam para o ataque à reputação, como o desafio de abertura de sigilos bancários e acusações diretas sobre envolvimento com episódios de corrupção. São manifestações produzidas a partir de perfis como o do presidente Lula (@lulaoficial) que, alcançando 518.504 interações, sendo 392.938 curtidas e 125.566 comentários, questiona: "E aí, Flávio Bolsonaro? Vai abrir o sigilo ou não? Eu te desafio, mais uma vez a abrir seu sigilo bancário, assim como eu estou disposto a abrir o meu! Você tem uma semana para ter coragem de mostrar..."
A análise indica que o tema “debate” conecta diferentes partes do ecossistema político-eleitoral não apenas pelo diálogo em torno de um plano de governo, mas também pelo uso do confronto como matéria-prima compartilhada. Em parte das publicações, cada perfil empacota o mesmo episódio para acionar os gatilhos emocionais e de confirmação de sua própria bolha.


