Uma base social renovada de esquerda é, sem dúvida, o maior legado dessa eleição de 2026, na qual Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao quarto mandato presidencial. A expressão visual dessa base se revelou timidamente a partir das imagens das manifestações de rua dos estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), logo após a derrota do petista no primeiro turno, no dia 4 de outubro. Em três semanas, o modelo horizontal de Niterói (RJ) irradiou-se pelo país afora, constituindo uma base gigantesca de atos similares e grandiosos capazes agora de mobilizar a sociedade para a defesa de novas agendas políticas ou para enfrentamentos a retrocessos que se queiram impor ao país.
O certo é que esta foi uma eleição que demonstrou que não há vitória eleitoral sem um movimento de rua forte, organizado, massivo, nutrindo criativos e trends para as redes sociais. Ter rua vence eleições. Esse modelo de “movimento social” como instrumento do marketing político é uma vitória do modelo nordestino de campanha política.
Um modelo criativo e inovador que, com muita alimentação de atos de rua e divulgação destes em redes sociais, ganhou dominância na cena brasileira, seja pelos "bloquinhos do 22", seja pelos "bota pra virar" da campanha de Lula, ambos amplamente horizontais, hiperfocados em jogar luz na força coletiva e no protagonismo de um candidato, se diferenciando da mofada estratégia das carreatas e comícios barulhentos sudestinos. O Nordeste, portanto, foi decisivo também na renovação nos formatos e na linguagem da comunicação política.
O segundo componente da vitoriosa eleição lulista foi o mecanismo de comando, muito hierarquizado, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Numa campanha política, tudo que as pessoas precisam é de comando unificado. Podem perder, mas saber o que fazer e para onde ir é meio caminho andado.
Janones se tornou o marketeiro do povão, apontando o que fazer e direcionando a energia das pessoas para ações precisas, simples e de curto prazo. Essa massa de pessoas teve juízo e obedeceu, se apropriando do mecanismo robotizado do bolsonarismo: no lugar do “eu sou um robô do Bolsonaro”, essa foi a eleição do “eu sou um soldado do Exército do presidente Lula”. Logo, logo, esse mecanismo vai estar sendo copiado por outros campos políticos. Não será exclusividade do campo da esquerda.
Essa ação mais automatizada de publicar sincronicamente no Instagram uma foto vestido com a camisa amarela da Seleção Brasileira; de subir trends no X (antigo Twitter); de curtir, compartilhar, repostar, comentar posts; de criar criativos baseados em uma única mensagem acabou indo na jugular matemática das aplicações algorítmicas, programadas exatamente para detectar padrões simples nas interações de uma multiplicidade massiva de usuários para entregar o mesmo interesse para um mesmo grupo de consumidores ávidos por ele. Os eleitores lulistas literalmente “dobraram a Meta”, ao fornecer para o algoritmo do "for you" aquilo que todo eleitor engajado mais precisava: pertencimento computacional.
O efeito desse pertencimento computacional fez girar uma espiral de criatividade, cujos áudios do Instagram são as evidências mais simples dessa operação popular de inovação. “Na cabeça da minha pica”, “Bolsonaro é o caralho, essa porra é Lula da Silva”, “Era só só mais um Silva”, “pessoal, urgente,” o trecho da música de Rubel (que alimentou uma onda enorme de conteúdos feitos por moradores dos estados nordestinos), “quem fica parado é petista disfarçado” (e os vídeos de pessoas ficando paradas), “bota pra virar, bota pra virar” foram exemplos também de uma comunicação compósita.
Vários eleitores utilizavam esses áudios para criarem uma mobilização social, alimentando continuamente a base digital de engajados, que levavam essa trilha sonora para as ruas, num looping de mais imagens para fabricar novos conteúdos usando esses mesmos áudios.
São muitas camadas digitais para serem ainda analisadas, material farto para quem adora comunicação política. Mas é também sabido que nada dessa ação digital seria relevante sem o chão das ruas, que é o mais importante ativo de agora para governos e oposição progressistas, porque, afinal, nenhuma luta acaba nas eleições.

A arte muitas vezes antecipa a realidade
Como a arte muitas vezes antecipa a realidade, Lula, logo após a confirmação da vitória, na Avenida Paulista, parecia ser embalado pelo lindíssimo samba sobre sua história, levado na Sapucaí pela Acadêmicos de Niterói. Parecia que cada pessoa, ali na Paulista e em cada rua lotada de pessoas nesse país, era o eu lírico do samba-enredo:
“Me via nos olhares dos meus filhos Assombrados e vazios Com o peito em pedaços Parti atrás do amor e dos meus sonhos Peguei os meus meninos pelos braços Brilhou um Sol da pátria incessante Pro destino retirante Te levei, Luiz Inácio.”
Te levamos, Lula da Silva. Mais uma vez. Valeu demais!

