Entre 9 e 15 de outubro, os comentários no X (antigo Twitter) às publicações dos candidatos à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) revelaram interpretações opostas dos mesmos episódios. Apoiadores de ambos recorreram a esses acontecimentos para defender seus posicionamentos políticos.
O ato na Avenida Paulista, a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o canal “Exército do Lula”, o decreto dos games, a votação do fim da escala 6x1 e a polêmica da foto de uma criança com arma tornaram-se bandeiras de campanha e argumentos de acusação. Esses acontecimentos receberam enquadramentos antagônicos, expressos em contraposições como “mar de gente x depredação”, “censura x fake news” e “incentivo x oportunismo”.
O mapeamento das conversações corresponde ao sétimo monitoramento realizado pelo Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic/Ufes) desde o início das eleições, no âmbito do projeto IA para Democracia. O levantamento reúne 24.806 comentários processados em 222 publicações de Lula e Flávio, que somaram 86.326 interações (curtidas mais comentários).
Narrativas: "mar de gente” x “depredação"
A manifestação de apoio à candidatura de Lula na Avenida Paulista, em São Paulo, tornou-se um dos episódios que concentraram os comentários durante a semana analisada. O ato também repercutiu no Rio de Janeiro, com a mobilização identificada pela hashtag #Lulacabana. A campanha petista destacou a dimensão do evento e estimou mais de 1 milhão de participantes, conforme os sites CartaCapital e G1.
Nos comentários processados, porém, a mobilização foi interpretada de maneiras opostas: enquanto apoiadores celebraram a demonstração de força política, opositores enfatizaram denúncias de depredação e questionaram os efeitos eleitorais do evento.
No cluster rosa do grafo que apresenta a rede semântica, marcado por termos como “Lula”, “democracia”, “bora” e “votar”, usuários do X comemoraram a manifestação. Um deles escreveu: “Que o mundo conheça o poder popular do Brasil!”. Já no agrupamento amarelo, as palavras “vândalos” e “depredação” refletiram críticas ao ato, com participantes mencionando danos ao patrimônio e cobrando um posicionamento do presidente. “O Sr não vai falar nada sobre a depredação da Avenida Paulista?”, questionou um deles.
Protagonismo estudantil
A crítica também alcançou os estudantes, colocados no centro da disputa eleitoral. Após os resultados do primeiro turno, o movimento estudantil intensificou sua presença nas ruas, com atos públicos, carreatas e ações de “vira-voto” em diversas capitais e cidades do país, entre elas Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Colatina (ES) e Porto Alegre (RS), em defesa do governo Lula e contra a oposição. De acordo com a Agência Brasil, milhares de alunos se manifestaram para defender a democracia e a educação pública, além de se posicionarem sobre o momento político nacional.
A análise das conversas nas redes mostra como essa presença foi enquadrada. No cluster amarelo, o termo “estudantes” apareceu associado a palavras como “vândalos” e “depredação”. Um exemplo é a publicação que, a respeito dos atos na Avenida Paulista, questionou: “Isso é estudante ou vândalos?”.
Os comentários também abordaram a proposta de Lula de criar, em um eventual novo mandato, uma versão do Pé-de-Meia para universitários. O programa oferece incentivo financeiro à permanência de estudantes no ensino médio público. Segundo o Partido dos Trabalhadores, a iniciativa voltada ao ensino superior prevê bolsa mensal de R$ 700 e poupança anual de R$ 2.500 para alunos de universidades públicas e bolsistas. A medida foi celebrada por usuários do X que destacaram as dificuldades para continuar os estudos: “Medida importantíssima meu presidente! Como estudante da universidade pública sei na pele como é difícil”.
Outros questionaram a abrangência da iniciativa, perguntando se beneficiários do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), que financia cursos em instituições privadas, e do Programa Universidade para Todos (Prouni), que concede bolsas nessas faculdades, teriam direito ao auxílio. Já entre os críticos, a proposta foi interpretada como estratégia eleitoral: “Tá desesperado, lula? Quer comprar até os estudantes hahahaha”.
Canal “Exército do Lula” e acusação de censura
A derrubada do canal “Exército do Lula”, criado no WhatsApp pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) e com mais de 9 milhões de usuários, mobilizou as redes em duas ondas de hashtags. O caso foi noticiado pela Folha de S.Paulo, pelo Brasil de Fato e pela CartaCapital. Nos comentários, apoiadores atribuíram a medida ao presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e a classificaram como “censura”.
Nos clusters vermelho e vinho, a primeira onda, com #JanonesELulaCensurados, reuniu apoiadores que afirmaram que o canal havia sido derrubado por ordem de Nunes Marques e não continha desinformação. “Não houve nada de fake news, o canal do Lula só estava até o momento recrutando pessoas para debater e informar”, escreveu um usuário do X. Na segunda, com #JanonesEuAutorizo, multiplicaram-se publicações de uma linha, geralmente combinadas com hashtags como #NinguemCalaOExercitoDoLula.
Janones apareceu como coordenador da ação: orientava o que deveria “explodir”, onde engajar e quem seguir. Segundo um usuário do X, o canal ficaria 48 horas fora do ar e, até lá, o parlamentar continuaria instruindo os apoiadores pelo Instagram.
Os opositores usaram o nome de Janones para ironizar e atacar, com expressões como “Gabinete do Ódio do Janones”.

Criança com pistola
O caso do menino que comemorou o resultado do primeiro turno com uma arma de fogo na mão, em Parnamirim (RN), levou o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) a abrir uma apuração, segundo a Veja e o G1. A TV Brasil também tratou da responsabilização dos pais com base no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e no Estatuto do Desarmamento. Nas redes, a imagem foi incorporada à disputa eleitoral e passou a alimentar slogans de campanha.
No cluster ciano, que reúne termos como “futuro”, “crianças” e “armas”, a foto foi usada como símbolo do que poderia ocorrer sob um eventual governo Flávio Bolsonaro, associado por usuários do X à fome e a facções. Um deles escreveu que “o único futuro para seus filhos e demais crianças seja como naquela foto bolsonarista: uma criança com pistola nas mãos”. A mesma ideia reapareceu no núcleo laranja, em pedidos de proteção à infância: “Elas precisam de livros e não de armas”.
Do apelo emocional, a conversa avançou para o campo institucional. No cluster verde, a contraposição entre “livros” e “armas” ganhou referências ao ECA e à Constituição, um dos termos mais frequentes do grupo. Nesse agrupamento, circulou o slogan “se Flávio vence, você perde”, acompanhado do apelo “não mexa nos nossos direitos”. Uma publicação sintetizou o raciocínio: “Lula = Livros e respeito à Constituição / Flavio = armas e instabilidade institucional”. Para apoiadores de Lula, o candidato do PL “vai rasgar a Constituição” e cortar direitos.
A declaração de Flávio sobre utilizar a maioria da direita no Congresso Nacional para propor emendas à Constituição Federal, segundo a BBC News Brasil, foi mencionada nos comentários que sustentavam essa narrativa.
De acordo com o G1, o presidenciável apresentou a proposta como uma medida “para redemocratizar o país”. A fala ganhou repercussão nacional. Em contraposição, circulou uma imagem de uma menina com a Constituição nas mãos, em um ato no Rio Grande do Norte. Identificada como Valentina pela Tribuna do Norte, ela teve sua foto comparada à do menino armado, segundo o UOL Notícias. As duas cenas passaram a funcionar como opostos visuais da mesma disputa.
Os opositores, por sua vez, devolveram a acusação e viram na imagem da menina uma peça de propaganda: “Vocês RASGARAM a Constituição e fazem uma propaganda segurando a mesma?”.
Gamers divididos: agradecimento x “oportunismo”
O decreto que regulamenta o Marco Legal dos Jogos Eletrônicos e institui o programa Desenvolve Gamers Brasil, assinado em 14 de outubro, segundo o gov.br, prevê medidas de apoio ao setor. Para o Poder360, a iniciativa mira os jovens ao prometer financiar a formação profissional na área.
No cluster azul-escuro, a conversa girou em torno da identidade gamer. Parte dos usuários do X agradeceu o fomento: “Nós gamers estamos com você Lula!”. Outros relataram apoio de longa data, como um participante que afirmou ser “gamer desde a época do Atari” e votar em Lula. Do lado contrário, houve quem prometesse não votar no presidente e mencionasse impostos, a “lei Felca” e restrições ao Discord: “Sabotou os gamers com a lei Felca e impostos absurdos e agora vem com essa”.
A crítica ganhou novo contorno no cluster amarelo, onde o debate passou da identidade para a autoria. Usuários do X atribuíram o marco legal ao deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP): “O marco legal dos games é de autoria do Kim Kataguiri”. Também acusaram Lula de aproveitar o tema a poucos dias da votação de 25 de outubro: “Sempre bom surfar na onda as vésperas do segundo turno”.
A disputa se intensificou em uma discussão com o perfil @kyotaakun, que reuniu mais de uma dezena de respostas e terminou em ofensas pessoais. Também apareceu o comentário: “FLÁVIO BOLSONARO é gamer raiz”.
Fim da escala 6x1
A aprovação da proposta pelo fim da escala 6x1, em 14 de outubro, foi celebrada por usuários do X, especialmente no cluster vinho, que apresentou maior organização em torno de hashtags. A repercussão incluiu a hashtag #LulaPaiDoFimDa6x1 e manifestações que trataram a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais como uma conquista: “Vencemos! Fim da 6 x 1!”.
O voto favorável do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) também gerou comentários sarcásticos, como “Flávio fez o L”. Em sentido contrário, críticos classificaram a medida como “compra de votos” e argumentaram que sua implementação exigiria uma alteração constitucional.


